domingo, 6 de março de 2011

Uma viagem sem sair do lugar

São 4 horas da manhã de domingo, antevéspera da maior festa brasileira. A folia toma conta de todo o País. Em Salvador, trios elétricos movimentam milhares de pessoas pelas ruas. É o calor humano - mistura de raças e sotaques. No Anhembi, sintonia na avenida, coreografias, ritmos, sons e toadas. Correndo contra o tempo, brigando pelo título, agremiações desfilam ideias, criatividade e magia. Para delírio da plateia notívaga, louca por fortes emoções e adrenalina.

Enquanto alguns pulam e cantam no Sambódromo paulista, e outros mais dançam ao som baiano em torno de caminhões musicais, muitas pessoas dormem. Me poupo disso, afinal é Carnaval. Uma rima solta, jogada nessas linhas que escrevo sem sono. Lá fora, a escuridão soma-se ao silêncio. É irônico saber que a poucos metros, talvez quilômetros, o som ensurdece a região do Anhembi. A mim, sobra o canto do nada dizer, ausência de falas, ruídos e sons.

Talvez uma viagem resolvesse isso tudo. Uma loucura momentânea, experiência de horas. Delírio da madrugada, vontade instintiva de sair por aí. Sem rumo, nem documento. Sentir prazer, sangue na veia, calafrios pelo corpo. Quando penso que o sábado passou, sumiu, fugiu, virou poeira no vento que cala o silêncio da noite, só me descrevo em uma palavra: desanimado. Sofro pelo domingo que está aí, iniciando firme e forte. Não, não é um domingo qualquer, penso eu. Uma saída melhoraria qualquer sombra de tristeza em mais um dia que promete ser cinzento. O nublado me entristece, seca minha boca, traz consigo angústia ao meu coração.

Queria ficar acordado para desfrutar do dia que começa. Ao máximo. Prazer ilimitado. Sensações mil, adrenalina multiplicada pelo maior valor que existir. Se é que existe, dizem que os números são infinitos. São com eles que contamos o tempo, amigo fiel em alguns momentos; pobre traidor em outros. Longe de mim querer dominar o que foi denominado como relativo. Mas bem que ele poderia parar por instantes. O domingo, a segunda e terça poderiam ter, sei lá, 40 horas cada um. Seria o suficiente para me preencher. Ou não.

Ainda nesta noite parcialmente fria, calada - sombria, por que não? -, sou tomado por uma consciência estranha. Meus dedos fluem no teclado ao mesmo tempo em que um pernilongo se aproxima. Delírio ou realidade? Não consigo mais distinguir. Queria que alguns devaneios fossem reais. Ficaria feliz também se alguns fatos fossem delírios, meras ilusões. Como se eu pudesse comandá-los, à força de uma vontade que não está dentro de mim.

Coloco uma música, evito ligar novamente a televisão. Cansei de alegorias, mestres-salas e porta-bandeiras, coreografias, baianas e bateria. Um som mais suave é melhor que isso tudo neste momento. Essa noite tão introvertida clama por reflexões. Nada filosofal, nem existencial. Pensamentos de planos, projetos para o domingo que logo mais contará com um céu claro, limpo e ensolarado. Ilusão, sonho? E se chover? Dane-se, preciso aproveitar ao menos um dia neste Carnaval. Vamos aos planos, começar uma viagem agora. Aqui, sentado, ouvindo sons variados. Buenos dias.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Não custa experimentar

Experimentar, viver momentos. Estar ali naquela situação única e inigualável. Ser e não ser ao mesmo tempo. Um tempo relativo, claro. Aventurar-se, correr riscos. Por quê? Para quê? A resposta é simples: puro prazer. Emoções à flor da pele. Adrenalina? Ah, sim, uma dose. Tudo isso vira lembrança, memória de um dia. Mais um para a contagem regressiva? Não, mais um dos melhores. Dos bem vividos e aproveitados.

Misto de loucura e tranquilidade. Uma reflexão em meio a sentimentos frenéticos. De volta à realidade, percebe-se que o tempo voa. Relógios, parem! Somente por instantes. Alguns momentos são inesquecíveis e não perecíveis ao tempo, fiel escudeiro em certas situações, inimigo em outras. Recordar é viver. Mas para relembrar, antes de tudo, é preciso saber viver. Não importa como, onde e quando, só saiba. Eis uma aventura, um dia, turbilhão de emoções. Sangue correndo na veia.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A arte de demitir profissionais da notícia

Nunca se ouviu tanto falar de crise do jornalismo impresso. Será que esse tipo de mídia tradicional está mesmo passando por um momento conturbado? Não há respostas prontas para um questionamento tão polêmico. Sobram opiniões, palpites e, como estamos lidando com jornalismo, dúvidas e mais dúvidas. Porém, dois exemplos recentes transformam ainda mais o assunto em pauta quente.

Nas últimas semanas, a demissão do repórter Aguirre Peixoto, do jornal baiano "A Tarde", provocou a ira de muitos jornalistas pelo Brasil inteiro. O profissional foi dispensado, e depois readmitido por conta da pressão de colegas que fizeram greve, após publicar uma reportagem crítica sobre empreiteiras que são parceiras comerciais do diário. O fato é que a saída do repórter tornou ainda mais evidente o que já era percebido: a profusão e intensificação do jornalismo publicitário, sustentado por anúncios e patrocinadores.

Nesse sentido, a notícia é tão somente um produto. As leis do mercado ganham força, empresários assumem o poder de verdadeiros conglomerados jornalísticos. Ok, isso não é um fenômeno atual. Assis Chateaubriand e Roberto Marinho que o digam. Ambos construíram impérios midiáticos, sucumbiram ao jornalismo empresarial, pautado pelo lucro. Num cenário selvagem como esse, existem vários Aguirres Peixoto espalhados pelo País. A maioria sem coragem suficiente para colocar em prática o que ele fez.

Outro caso, esse ainda mais recente, repercutiu pela imprensa nesta semana. O conceituado e tradicional Grupo Estado, que controla o jornal paulista "O Estado de S. Paulo" e o Portal Estadão.com, entre outros veículos, demitiu 22 funcionários. As dispensas ocorreram por conta de "corte de gastos", segundo explicou o diretor de conteúdo do Estadão, Ricardo Gandour, em entrevista ao Portal Imprensa. Contraditoriamente, meses atrás o mesmo veículo divulgou uma pesquisa que revelava o aumento de sua circulação.

Duas situações de demissão, casos diferentes. Mesmo assim, ambos refletem uma discussão sobre o futuro dos impressos. Exemplifico: a qualquer momento, uma matéria pode "cair". O que isso significa? Um novo anúncio deve estampar a página no lugar de uma reportagem. A consequência disso é, sem dúvida, a diminuição de um dos princípios básicos do jornalismo tradicional, a informação. Em contrapartida, o capital surge como elemento em situações como essa. E para gastar menos, o que fazer? Enxugar redações, é claro.

Dispensas de jornalistas e pressão de parceiros comerciais tornam ainda mais distante a prática do jornalismo puramente informativo e engajado. Na era do capitalismo, com a globalização a todo o vapor, as cifras interessam mais. E os profissionais da notícia, cada vez menos. É lamentável, afinal o dinheiro sozinho não produz os textos dos jornais. Atrás de máquinas, estão repórteres, editores. E, sobretudo, seres humanos que pensam em pautas e executam ideias.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Carro bate em poste e provoca apagão

Veículo colide com poste de iluminação e deixa ruas de bairro na zona norte sem luz na noite de domingo

O relógio marcava 22h20 no último domingo (06). Em uma rua próxima da Avenida Engenheiro Caetano Álvares, um carro aumentou a velocidade e, descontrolado, bateu de frente com um poste de iluminação. Imediatamente, o quarteirão de parte de um bairro na zona norte ficou sem luz. Alguns segundos depois, as luzes das ruas próximas acenderam novamente, apagando-se logo em seguida. A pane assustou os moradores da região, que saíram de suas casas desesperados em busca de informação do que havia ocorrido.

Por volta das 22h30, nas ruas sem iluminação, era observado o congestionamento de carros. E de pessoas. Vizinhos conversavam uns com os outros e trocavam as informações que tinham. Na rua onde aconteceu o incidente, os ocupantes do carro permaneciam estagnados. O susto tomou conta do motorista e do único passageiro que havia no veículo. De acordo com informações, eles não sofreram lesões físicas.

Minutos depois do ocorrido, a movimentação diminuía. As pessoas souberam que ninguém havia morrido. De alguns indivíduos, pude ouvir ainda algo assim: "Mas ninguém morreu, não é?". Como se a morte fosse o único elemento de um incidente ou uma batida de carro. Outros ainda reclamavam do apagão que os impediu de continuar certas atividades que realizavam, ou até mesmo não os deixou assistir ao jogo da seleção brasileira sub-20. E aquelas pessoas no carro, como estariam? Isso não preocupava muito os moradores.

Com o passar do tempo, via-se alguns indivíduos voltarem para suas casas, já sem esperança do retorno da energia elétrica no final da noite de domingo. "Ixi. A luz só volta amanhã. Até a Eletropaulo vir", comentavam. Outros eram mais otimistas: "Daqui a pouco, tudo volta ao normal", profetizavam. Naquele momento, as palavras da maioria dos moradores expressavam diversos sentimentos, da resignação à revolta.

Eletricidade: vivemos sem ela?

No entanto, poucos devem ter parado para pensar em algo importante. Como a energia elétrica é fundamental na atualidade. Após o apagão, as casas não só estavam na escuridão, como as pessoas não tinham acesso a nenhum equipamento eletrônico, obviamente. Restava à maioria telefones celulares, alguns já com a bateria próxima de descarregar.

O fato ocorrido mostrou o quão essencial é a eletricidade nas cidades, tornando o exemplo de proporções maiores. Basta lembrar do apagão que aconteceu recentemente no Nordeste brasileiro e deixou moradores sem luz. Outra situação semelhante ocorreu em 2009, quando estados da região Sudeste também ficaram sem iluminação por conta de uma pane no fornecimento de energia elétrica da usina de Itaipu.

Para fechar a noite

Quando boa parte dos moradores da região estava dormindo ou se preparando para descansar, os mais atentos ouviram um forte barulho. Descobri naquele mesmo instante, por volta das 0h30, que dois carros haviam se chocado, provocando um acidente em um cruzamento. Sem o auxílio dos faróis nas duas direções, ambos os veículos aceleraram e não conseguiram impedir o choque. De acordo com informações, os ocupantes dos carros não sofreram ferimentos graves.

E assim terminou a noite de ontem, agitada para os moradores das ruas que cruzam a Engenheiro Caetano Álvares e a Avenida Casa Verde.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

It's friday!

Ele acorda às 7h toda manhã, mas hoje resolveu prolongar o sono. Nada mais justo. Ou não. Quase 9h, pulou da cama, esticou os braços como não fazia há muito tempo. Alguns minutos depois, sintonizou na Band News FM. Na frequência, o colunista José Simão fazia suas piadinhas - para alguns, sem graça; para outros, provocadoras de gargalhadas.

Às 10h em ponto, estava pisando no chão do local de trabalho. Mas alegre e saltitante, afinal o final de semana se aproximava. Nas primeiras horas de serviço, nenhuma novidade. O futuro jornalista só não esperava por certos causos, se é que assim chamamos determinadas situações. Curiosas, de primeiro momento. Provocadoras de tensão, no minuto seguinte.

Quando tudo corria bem, o pânico tomou conta. Mãos esfriaram, o coração gelou. Afinal, o que houve? Nada de grave, uma pasta sumiu do computador. Sem preocupações, ok? Engana-se quem pensou assim. Os documentos contidos naquela bendita pasta desapareceram da rede! Caso não fossem encontrados, quase um ano de trabalho seria jogado no lixo. Porém, não estamos lidando com papeis, o que significa que aqueles arquivos tinham 0,01% de chances de serem recuperados. O que falei sobre a cara do sujeito: pânico, certo?

Naquele instante, o calor que entrava pela janela do 13º andar não aliviava o misto de fúria, tensão e tristeza. E o pior de tudo: a inconstante hora do almoço (ele almoçava em horários diferentes em cada dia) estava próxima. Bom, pelo menos a alimentação poderia trazer conforto à mente daquele indivíduo que se viu isolado em meio a uma sala com dez pessoas. Não, não. A comida passou seca pelo estômago. A cada instante em que olhava para o computador e observava a ausência da bendita (naquela altura, já tinha virado maldita) pasta, seu corpo parecia cada vez mais ser coberto por uma geleira.

Todos voltaram do período sagrado do almoço. O jovem resolveu fazer uma ligação que completaria um trabalho importante. Quando balbuciou as primeiras palavras ao telefone, ouviu vozes no fundo. Sua atenção voltou-se para o que ocorria ao redor. Pediu desculpas ao rapaz com quem falava e disse que ligaria após alguns instantes. Com um misto de raiva e alegria, colocou o telefone no gancho. Mas, afinal, o que o sujeito ouviu? Adivinhem!

A pasta. Quando escutou falarem "A pasta do fulano está naquela pasta do cicrano", sentiu vontade de gritar. Sentiu desejo de pular. Porém, só riu. E quase chorou. Quis sair correndo, não conseguiu. Só pôde comemorar e, sim, voltar ao trabalho. Retomar a ligação que teve de desligar por conta daquele fato incrível. Talvez ele até fosse veiculado no portal de notícias mais atualizado, aqueles em que "sobem" notícias numa fração de minutos.

Por falar em notícias, o jovem futuro jornalista ainda ganharia o dia. Sua sexta-feira seria contornada por um acontecimento memorável. Não, ele não ficou sabendo sobre outro desaparecimento de pasta virtual. Somente conquistou uma entrevista para um grande veículo paulistano. E o frio? Sumiu por completo. Precisou até ligar o ar condicionado da sala para aliviar o calor que sentiu ao conseguir tal feito. Contou para todo mundo, exerceu seu lado jornalista mais louco e estranho, talvez o mais normal: a mania de sair divulgando por aí uma informação.

E quando o relógio marcava 17h45, fechou o dia. Efusivamente, deixou o local de trabalho, com a missão diária cumprida. Aliás, mais que cumprida. Numa sexta-feira doida, experimentou de tudo: do gelo presente no nervosismo ao calor da emoção positiva. Correu para casa. Só faltou gritar, com toda força possível: It's friday! Foi a primeira frase que disse (e escreveu) ao começar o dia. E que dia!